Em um contexto marcado por transformações profundas nas relações familiares, no modo de vida e nas referências sociais, o diálogo entre gerações tornou-se cada vez mais desafiador. Em muitos lares, pais e filhos convivem com diferenças de linguagem, valores e expectativas, influenciados por narrativas externas que nem sempre dialogam com a realidade cotidiana da família.
É nesse cenário que surge A Ordem Esquecida, livro assinado por Max Katsuragawa Neumann em coautoria com sua filha, Maria Clara de Souza Katsuragawa Neumann, de 17 anos. Mais do que um detalhe editorial, a coautoria representa um encontro entre gerações em torno de temas como responsabilidade, valores familiares e sentido de vida.
A participação de Maria Clara não se limita a um papel simbólico. Sua contribuição é autoral e nasce de reflexão própria. A jovem escreve a partir de sua vivência, como filha e como integrante de uma geração frequentemente descrita como livre, mas que também convive com altos níveis de ansiedade, insegurança emocional e questionamentos sobre identidade e propósito.

Enquanto grande parte do debate público fala sobre os jovens, Maria Clara escreve a partir da juventude. Seu texto não reproduz discursos prontos nem slogans ideológicos. Ele se constrói a partir da experiência concreta de quem cresceu em um ambiente familiar estruturado por escolhas conscientes, compromisso e permanência, valores que, embora frequentemente questionados no discurso contemporâneo, seguem presentes no cotidiano de muitas famílias.
Em um dos trechos que assina na obra, a jovem observa um paradoxo recorrente: quanto maior o volume de discursos sobre liberdade absoluta, mais difusa se torna a noção de identidade e pertencimento entre jovens. Sua abordagem não busca julgar nem idealizar o passado, mas observar, comparar e refletir a partir da própria experiência.
Um ponto central de sua contribuição está na percepção de que muitos jovens não rejeitam conceitos como família, fé ou compromisso em si. O distanciamento costuma estar relacionado à incoerência entre discurso e prática, à ausência de referências consistentes e à fragilidade dos exemplos adultos. Quando encontram ambientes familiares baseados em responsabilidade, cuidado e coerência, a resposta tende a ser de aproximação, não de rejeição.
A coautoria entre pai e filha também desafia a ideia de que autoridade e afeto são conceitos opostos. A Ordem Esquecida nasce do diálogo, não da imposição; da complementaridade entre maturidade e sensibilidade, experiência e percepção, tradição e presente.
Ao longo do livro, são abordados temas sensíveis e muitas vezes evitados no debate público, como papéis familiares, identidade masculina e feminina, responsabilidade, fé e sentido de dever. A abordagem é reflexiva, e a presença de Maria Clara funciona como um contraponto geracional, colocando à prova se essas reflexões ainda dialogam com quem está iniciando a vida adulta hoje.

Talvez o aspecto mais significativo dessa coautoria esteja na mensagem implícita que ela transmite: a reconstrução social passa, inevitavelmente, pela reconstrução dos vínculos familiares. E o diálogo entre gerações continua sendo um elemento central nesse processo.
Mais do que um projeto literário, A Ordem Esquecida se apresenta como um convite à reflexão sobre fundamentos que atravessam gerações. Quando uma filha escreve com o pai, o que se constrói não é apenas um livro, mas uma ponte entre experiências, visões e tempos diferentes — algo especialmente relevante em uma sociedade marcada por fragmentações e distanciamentos.